Guia
Interpretação de exames laboratoriais: o que checar antes do resultado
Três coisas decidem se um número está alterado, e nenhuma delas é o número. A unidade em que ele veio, a faixa contra a qual está sendo comparado, e de quem é o corpo.
Este guia é sobre a etapa que vem antes da interpretação clínica: conferir que o valor e a referência estão falando a mesma língua. É uma etapa chata, e é onde mora a maior parte dos erros que a gente vê em prontuário.
1. A unidade não é enfeite
O mesmo marcador chega em unidades diferentes dependendo do laboratório, e a diferença entre elas raramente é pequena. PCR ultrassensível vem em mg/dL num laboratório e em mg/L no outro. São dez vezes de diferença. Um valor de 0,32 mg/dL comparado com uma referência escrita como < 1 mg/L lê como normal e está três vezes acima.
Esse caso não é hipotético. Aconteceu em produção aqui: duas telas do mesmo sistema mostraram vereditos opostos para a mesma linha, porque uma convertia a unidade antes de comparar e a outra não.
As conversões que mais aparecem na prática funcional:
| Marcador | De | Para | Multiplique por |
|---|---|---|---|
| Vitamina D 25-OH | ng/mL | nmol/L | 2,496 |
| Vitamina B12 | pg/mL | pmol/L | 0,7378 |
| Folato | ng/mL | nmol/L | 2,266 |
| Testosterona | ng/dL | nmol/L | 0,03467 |
| Estradiol | pg/mL | pmol/L | 3,671 |
| Cortisol | µg/dL | nmol/L | 27,59 |
| Glicose | mg/dL | mmol/L | 0,0555 |
| Colesterol total | mg/dL | mmol/L | 0,02586 |
| Creatinina | mg/dL | µmol/L | 88,4 |
| Homocisteína | mg/L | µmol/L | 7,397 |
Duas equivalências que parecem conversão e não são. Ferritina em ng/mL e em µg/L é o mesmo número, sem fator. Contagem celular em /mm³ e em /µL também: um milímetro cúbico é um microlitro por definição. Vale saber, porque um sistema que sinaliza essas duas como divergência vai te mandar corrigir cinco linhas que estavam certas.
Um detalhe de grafia que atrapalha mais do que deveria: o prefixo micro aparece como µ, μ, u ou "micro" dependendo de quem imprimiu o laudo. µUI/mL e uUI/mL são a mesma unidade. Se você compara texto com texto, são strings diferentes.
2. A faixa impressa no laudo é uma faixa, não a faixa
O intervalo que vem no laudo é estatístico. Ele descreve onde caem 95% das pessoas que fizeram aquele exame naquele laboratório, com aquele método. Não descreve onde você quer que a sua paciente esteja.
São perguntas diferentes. "Este valor é incomum na população que passa por este laboratório" e "este valor é bom para esta pessoa" podem ter respostas opostas, e é exatamente aí que a leitura funcional se separa da leitura de triagem. Uma faixa funcional costuma ser mais estreita e frequentemente deslocada.
Nenhuma das duas está errada. O que dá errado é misturar: pegar o valor, comparar com a faixa funcional que você conhece de cabeça, e não reparar que o laudo daquele laboratório usou outro método de dosagem, com outra faixa.
O método importa
Alguns marcadores mudam de faixa conforme o ensaio. Vale conferir no laudo antes de comparar com uma tabela de referência guardada de outro contexto.
3. A faixa muda com o corpo
Testosterona, ferritina, hemoglobina, creatinina e vários outros têm faixas separadas por sexo biológico. Aplicar a faixa masculina a uma paciente, ou uma faixa geral quando existe uma específica, produz um veredito errado sem produzir nenhum erro visível.
Idade também. A faixa de um adolescente não é a de um adulto, e uma faixa adulta aplicada a um menor não é uma aproximação: é outra medida.
Se o sexo ou a data de nascimento não estão no cadastro, o sistema (ou você) está escolhendo uma faixa por omissão. Vale saber qual.
4. Compare com o exame anterior, não só com a faixa
Um valor dentro da faixa que caiu 40% em seis meses conta uma história. O mesmo valor visto sozinho não conta nenhuma. A comparação longitudinal é o que separa acompanhar de conferir.
Para isso funcionar, os dois exames precisam estar na mesma unidade. É a mesma conversa do item 1, agora entre duas datas em vez de entre valor e referência.
Cuidado com repetição no mesmo dia. Dois resultados do mesmo marcador na mesma data às vezes são duas coletas reais e às vezes são a mesma linha lida duas vezes de um PDF. Tratar as duas situações do mesmo jeito estraga a série histórica.
Uma lista curta para usar na revisão
- A unidade do valor é a mesma unidade da referência? Se não, converta antes de julgar.
- A referência veio do laudo ou da sua tabela? As duas respondem perguntas diferentes.
- Existe faixa por sexo ou por idade para este marcador? O cadastro tem esses dados?
- Existe um exame anterior deste mesmo marcador? Está na mesma unidade?
- Se há dois resultados na mesma data, são duas coletas ou uma duplicata?
No Biohacker App, essa checagem acontece antes de você abrir o exame. Você sobe o PDF do laboratório, os marcadores são extraídos com a unidade normalizada, e cada um é comparado com a faixa que a Rita Castro calibrou, separada por sexo biológico. Quando o valor e a referência estão em unidades diferentes, o sistema converte e diz que converteu.
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Este material é dirigido a profissionais de saúde e trata do tratamento de dados laboratoriais, não de conduta clínica. A interpretação e a decisão são do profissional responsável.